- Abra sua porta.
- O que?
- Abra sua porta.
- Pra quê?
- O que você tem a perder?
- Não tenho razões para sair de casa agora. Além disso, está chovendo.
- Mas o mundo está lá fora.
- Você é o meu mundo, querido.
- Não.
E então, calou-se. Deixando a sala em um silêncio tão profundo que podiam ouvir os pensamentos um dos outros. Ela nada respondeu. Então ele continuou.
- Você não me ama. Nem eu amo mais você. Mas não se preocupe, não tenho remorsos. Não estou feliz, igualmente. Mas realmente acho que você devia sair de casa.
- Está me expulsando? Da sua vida também?
- Não. Apenas acho que não deveríamos continuar com isso. Por que não sai de casa? Quem sabe você não encontra o homem da sua vida hoje? Quem disse que um estranho não pode virar mais do que um estranho na sua vida? E se alguém aperecer pra dividir o guarda-chuva com você? E se esse alguém é a pessoa que você esteve procurando por toda sua vida? Saia de casa. Viva. O mundo está lá fora. As pessoas estão lá fora. O amor está por ai. Então saia, se desejar.
Então ela deu alguns passos em sua direção, e debruçou-se sobre ele para lhe dar um ultimo beijo naqueles lábios familiares. 1. 2. 3. 4. Ela o olhou nos olhos. E nada disse. Apenas sorriu. Estava tudo bem. Dentro de si, insegurança e ansiedade transbordavam. Estava bem alí. O começo e o fim da sua vida. Deu uma ultima olhada no fim, dando-lhe um ultimo beijo rápido. E fitou seu começo. Faminta, deu os passos que precisava. Olhou para trás.
- Adeus, amor.
Assim que saiu de casa, reparou em um volume no seu bolso traseiro. Rapidamente foi ver o que era. E ficou surpresa ao ver uma carta meio amassada. Entrou em um bar ali perto, e sentou-se para ler:
"Querida,
Talvez você nunca chegue a ler isso. Mas se está lendo, saiba que eu já desconfiava disso.
Sempre tive duvidas ocultas sobre o nosso amor...que suspeitavam de tal.
Nunca soube o que realmente sentias por mim, mas seus lábios proferiam "eu te amo" todas as noites. Não queria te magoar.
Queria que você soubesse, que nunca amei ninguém como te amei. Como te amo. Provavelmente não amarei mais ninguém. Pois o que sinto por você nunca morrerá. Sim, eu te amo. Mas precisava saber se você sentia o mesmo.
Me desculpe. Não queria que as coisas terminassem assim. Mas eu te amo. E quero que você seja feliz. Quero que ames alguém como eu te amo. Ou te amei.
Eu não pretendia viver sem você...Sinto muito.
Do seu eterno amor."Ela correu o mais rápido que pode em direção a sua casa. Lágrimas e desespero era visível no seus olhos cegos. Tristeza e arrependimento. Ela sabia exatamente o que isso significava. Sentimentos trocados e sobrepostos sobre ela. Pés altomáticos. Ela correu sem pensar se era mesmo o que devia fazer. Ela não queria saber. Só queria chegar ali. Assim que avistou a casa, foi correndo em direção a porta. Hesitou abri-la por um segundo. E quando abriu. Lá estava ele... no chão, deitado sobre o próprio sangue. Com uma faca em volta de sua mão sem vida. Ela deu uma olhada na carta, agora molhada e suja de tinta borrada. Estavam destroçadas. As duas. Limpou sua lágrima singular. E virou as costas ao seu agora verdadeiro fim. E se deparou com alguém olhando para aquela situação no outro lado da rua. Fechou a porta atrás de si. E arriscou um olhar ao homem que a estudava com cuidado.
- ...Oi, como se chama? Vi você entrando em casa, parecia preocupada e achei que talvez precisasse de ajuda. Não queria me meter mas não pude evitar.
- Oi...
***